Introdução

O poeta Gonçalves Dias era advogado, poeta indianista de renome, homenageado por D Pedro, que o tornou Cavaleiro imperial da ordem da rosa, por serviços prestados à educação; pesquisou  na Europa e trouxe um estudo para implantar o modelo francês nas escolas brasileiras.

Tinha 1 e 51 de altura, fumava cachimbo para escândalo da população maranhense da época, era mulato e cultivava a estética romântica, enfim era famoso pela criatividade, cultura e visão ousada de liberdade comportamental.

Apaixonou-se por Ana Amélia Ferreira do Vale, branca, cuja mãe, dona Maria Bocanegra, ao receber o pedido de casamento formal do poeta, imediatamente o recusou por puro e simples preconceito de cor.

Ana propôs ao  ilustre poeta, amigo do imperador, que fugissem em busca da felicidade amorosa, uma vez que se encontravam apaixonados; ao que por uma questão de honra pessoal e para não expor a amada, ele prontamente recusou, decretando sua infelicidade amorosa e dela também.

Ela se casa com um rico comerciante português, contratado pela mãe, o que era muito comum para o século dezenove e também se torna infeliz.

Ele para ” dar o troco ” também se casa com uma abastada filha de família brasileira da qual vive sempre distante

O tempo prega algumas peças!

Decorridos muitos anos após o relato acima, aproximadamente 12 anos, ele, a serviço do imperador está fazendo uns estudos na França (Paris), quando escuta no quarto em que morava um choque entre carruagens com consequente tombamento de uma delas.

Vai ao local na tentativa de ajudar os envolvidos quando, para sua surpresa, e ele a toma nos braços, está Ana Amélia, a quem (agora ele pede) diz “- Fiquemos juntos, meu amor!”; ao que , de  pronto, ela silenciosamente  recusa.

Nessa ocasião, motivado pelo incidente ele escreve o conhecido poema, que abaixo transcrevo. Procure ler com atenção  e foco voltados para o conteúdo geral. Não leia preocupado com o vocabulário. Deixe isso para uma segunda leitura, se necessário for.  Insista, vá até a última estrofe para consolidar a compreensão do tema

Ainda uma vez adeus !

I

Enfim te vejo! – enfim posso,

Curvado a teus pés, dizer-te,

Que não cessei de querer-te,

Pesar de quanto sofri.

Muito penei! Cruas ânsias,

Dos teus olhos afastado,

Houveram-me acabrunhado,

A não lembrar-me de ti

II

Dum mundo a outro impelido,

Derramei os meus lamentos

Nas surdas asas dos ventos,

Do mar na crespa cerviz!

Baldão,ludibrio da sorte

Em terra estranha,entre gente,

Que alheios males não sente,

Nem se condói do infeliz!

III

Louco, aflito, a saciar-me

D’gravar minha ferida,

Tomou-me tédio da vida,

Passos da morte senti;

Mas quase no passo extremo,

No último arcar da esp’rança,

Tu me vieste à lembrança:

Quis viver mais e vivi!

IV

Vivi; pois Deus me guardava

Para este logar e hora!

Depois de tanto,senhora,

Ver-te e falar-te outra vez;

Rever-me em teu rosto amigo,

Pensar em quanto hei perdido,

E este pranto dolorido

Deixar correr a teus pés.

V

Mas que tens? Não me conheces?

De mim afastas teu rosto?

Pois tanto pode o desgosto

Transformar o rosto meu?

Sei a aflição quanto pode,

Sei quanto ela desfigura

E eu não vivi na ventura…

Olha-me bem que sou eu!

VI

Nenhuma voz me diriges!…

Julgas-te acaso ofendida?

Deste-me amor, e a vida

Que ma darias- bem sei;

Mas lembram-te aqueles feros

Corações, que se meteram

Entre nós; e se venceram,

Mas sabes quanto lutei

VII

Oh! se lutei!… mas devera

Expor-te em pública praça,

Como um alvo à populaça,

Um alvo aos dictérios seus!

Devera, podia acaso

Tal sacrifício aceitar-te

Para no cabo pagar-te,

Meus dias unindo aos teus?

VIII

Devera,sim; mas pensava,

Que de mim t’esquecerias,

Que,sem mim,alegres dias

T’esperavam;e em favor

De minhas preces, contava

Que o bom Deus me aceitaria

O meu quinhão de alegria

Pelo teu quinhão de dor

IX

Que me enganei,ora o vejo

Nadam-te os olhos em pranto,

Arfa-te o peito, e no entanto

Nem me podes encarar;

Erro foi, mas não foi crime,

Não te esqueci,eu to juro:

Sacrifiquei meu futuro

Vida e glória por te amar!

X

Tudo,tudo; e na miséria

Dum martírio prolongado,

Lento,cruel,disfarçado,

Que eu nem a ti confiei;

” Ela é feliz (me dizia)

Seu descanso é obra minha. “

Negou-me a sorte mesquinha…

Perdoa, que me enganei!

XI

Tantos encantos me tinham,

Tanta ilusão me afagava

De noite, quando acordava,

De dia em sonhos talvez!

Tudo isso agora onde pára?

Onde a ilusão dos meus sonhos?

Tantos projetos risonhos,

Tudo esse engano desfez!

XII

Enganei-me!… Horrendo caos

Nessas palavras se encerra,

Quando do engano,quem erra,

Não pode voltar atrás!

Amarga irrisão! reflete:

Quando eu gozar-te pudera,

Mártir quis ser, cuidei qu’era…

E um louco fui,nada mais!

XIII

Louco,julguei adornar-me

Com palmas d’alta virtude!

Que tinha eu bronco e rude

Co’o que se chama ideal?

O meu eras tu, não outro;

‘Stava em deixar minha vida

Correr por ti conduzida,

Pura, na ausência do mal

XIV

Pensar eu que o teu destino

Ligado ao meu,outro fora,

Pensar que te vejo agora,

Por culpa minha,infeliz;

Pensar que atua ventura

Deus ab eterno a fizera,

No meu caminho a pusera…

E eu, eu fui que não a quis!

XV

És doutro agora, e p’ra sempre!

Eu a mísero desterro

Volto, chorando o meu erro,

Quase descrendo dos céus!

Dói-te de mim,pois me encontras

Em tanta miséria posto,

Que a expressão deste desgosto

Será um crime ante Deus!

XVI

Dói-te de mim, que t’ imploro

Perdão a teus pés curvado

Perdão!… de não ter ousado

Viver contente e feliz!

Perdão da minha miséria,

Da dor que me rala o peito

E se do mal que te hei feito,

Também do mal que me fiz!

XVII

Adeus,qu’eu parto,senhora;

Negou-me o fado inimigo

Passar a vida contigo,

Ter sepultura entre os meus;

Negou-me nesta hora extrema,

Por extrema despedida

Ouvir-te a voz comovida

Soluçar um breve adeus!

XVIII

Lerás porém algum dia

Meus versos, d’alma arrancados

D’amargo pranto banhados,

Com sangue escritos;-e então

Confio que te comovas,

Que a minha dor te apiade,

Que chores,não de saudade,

Nem de amor,- de compaixão

Comentando

Estas dezoito estrofes em oitavas são constituídas de versos heptassílabos e pertencem predominantemente à tipologia narrativa, cujo gênero poético traz como tema um amor irrealizado, infeliz por não ter sido concretizado por opção inicial do poeta e, posteriormente, por opção da amada.

O poeta Vinícius disse um dia que a “vida é a arte do encontro”, mas, no caso de Gonçalves e Ana foi a arte do desencontro: profundo desencontro amoroso de intensa paixão. Como percebemos isso?

Observando a sequência de versos, percebemos que, num primeiro momento, o poeta diz que ainda não parou de desejá-la (não cessei de querer-te); magoada, “profundamente” (cabe aqui esta expressão de Manuel Bandeira) ela não responde ( de mim afastas teu rosto?), mantendo sua dor em digno silêncio (nenhuma voz me diriges).

Continuando a leitura, percebemos que ele retoma os motivos que, na juventude, fizeram com que ele recusasse a fuga, proposta pela amada: “Expor-te em praça pública”; argumenta que optou pela solidão na certeza de que ela o esqueceria, contudo percebeu o “ledo engano” (Camões).

O poeta mostra a contradição existencial (estrofe XII), apresenta o que Deus havia preparado para eles para a felicidade eterna (estrofe XIV) e acentua a miséria de alma e de vida que tem (estrofes subsequentes); pedindo a ela, no final, apenas compaixão.

Sem cair no pieguismo, exageradamente romântico, mas, ao contrário, sendo sentimental e contido, o poeta nos emociona pela história de amor infeliz numa linguagem próxima do estilo clássico, embora com ímpetos de liberdade de expressão, tão em voga no Romantismo.

Sugestão

Procure perceber que a idealização da mulher aumenta o sofrimento do poeta, que o amor não correspondido ou” obstaculizado” provoca grande sofrimento. Note que, às vezes, a vida do autor está em relação direta e autobiográfica em relação ao que escreve. Isto ocorre muito na escola romântica, onde os sentimentos estão à flor da pele. Somente a leitura das obras e reflexão posterior pode facilitar o entendimento do texto, seja ele literário ou não.  Dito isto, somente a leitura reflexiva leva ao desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.